Cafés do Brasil: liderança no comércio exterior está ameaçada

Por NOTÍCIAS AGRÍCOLAS – 19/04/2018

Irrisório crescimento da produção, ausência de políticas públicas adequadas e falta de confiança entre os elos da cadeia podem ser as principais causas

Analisado o consumo global de café nos últimos cinquenta anos, observou-se que a taxa de crescimento saltou de 1,3% ao ano, na década 1970, para 2,5% a.a., na primeira década do século XXI. Entre 2010 e 2017, foi registrada ligeira oscilação (+2,3% a.a.), contudo, o ritmo de crescimento manteve-se mais intenso que nas três décadas iniciais da série. Esse movimento pode ser explicado, em parte, pela crescente aceitação do produto pelos consumidores dos países asiáticos, explica o Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento.

Considerando o atual dinamismo para o consumo global de café, torna-se possível estabelecer cenários para o desempenho da demanda para a próxima década. No cenário mais provável, com taxa de crescimento anual de 2% a.a., a quantidade de café necessária para manter o suprimento mundial, em 2030, seria da ordem de mais de 205 milhões de sacas, podendo atingir 219 milhões de sacas se o cenário considerado for o otimista, afirmam Celso Luís Rodrigues Vegro, pesquisador do IEA e Eduardo Heron dos Santos, diretor de Tecnologia da Informação (TI) do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

Com projeções tão promissoras seria lícito esperar que todos os agentes envolvidos no processo se empenhassem para ampliar suas iniciativas, com produtores centrando-se mais no aumento da produção e da produtividade do que na expansão da área cultivada; a indústria inovando na tecnologia de processamento, de apresentação do produto e comércio atendendo a demanda global por mais e melhores cafés; ao setor público cabe estabelecer, ações para garantir a renda do cafeicultor, difundir novas tecnologias e normatizar quesitos de sustentabilidade, sanidade, saudabilidade e padronização dos tipos, entre outros temas necessários para a boa governança entre os agentes de mercado, ressaltam os autores, destacando que, como o Brasil é principal produtor, exportador e segundo maior consumidor, deveria, assumir protagonismo nesse mercado.

De acordo com Vegro e Santos, “a tecnologia agronômica aplicada à lavoura, a excelência comercial dos exportadores e o empenho da indústria em oferecer uma linha de produtos diferenciada à uma população majoritariamente apreciadora da bebida configuram poderoso arranjo mercadológico, capaz de colocar o Brasil em posição de maior êxito no contexto dinâmico desse negócio”. No entanto, alertam os autores, nos últimos dez anos, os resultados obtidos pelo Brasil foram inferiores aos demonstrados pelo total global, dados que se intensificam quando comparados aos percentuais obtidos pelos principais países exportadores.

Entre 2012 e 2017, segundo dados da Organização Internacional do Café (OIC), a taxa de crescimento do consumo de café entre os países exportadores alcançou 2% a.a. Vietnã e Honduras, terceiro e quarto maiores exportadores do produto para os Estados Unidos, se prepararam para atender ao aumento da demanda. Em 2017, estes países aumentaram as vendas em 12,9% e 43,4%, respectivamente, enquanto o Brasil amargou queda de 10,9% para o mesmo destino.

Temos no Brasil um déficit no crescimento da produção, associado a políticas mal desenhadas e desentendimentos entre os componentes da cadeia. Em 2017, a participação da origem Brasil no comércio mundial de café foi de apenas 25%. “Essa incapacidade de produzir consensos e aumentar a confiança para atingir o tão sonhado crescimento econômico não é exclusividade do segmento café, mas da economia como um todo que permanece refém de modelos que já não atendem aos princípios que norteiam os países que avançam aceleradamente, crescem e se tornam mais prósperos que o nosso”, afirmam Vegro e Santos.

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