Startups brasileiras precisam ter visão global

Por Patricia Knebel – Jornal do Comércio – 17/10/2018

Mais de 2 mil startups em mais de 60 países e cinco continentes foram investidas pela 500 Startups, fundo global de venture capital de early stage sediado em São Francisco, nos Estados Unidos. No Brasil, foram mais de 40 jovens empresas inovadoras apoiadas – como, por exemplo a ContaAzul e a VivaReal, que valem, atualmente, mais de US$ 100 milhões cada uma. Agora, esse trabalho local deverá ser reforçado com a contratação da economista e empreendedora Itali Pedroni Collini como a nova diretora de Operações no Brasil. Itali tem a missão de fortalecer a presença da 500 Startups no País e dar suporte ao portfólio brasileiro e a todo o ecossistema nacional, conectando fundadores, investidores e corporações ao Vale do Silício e aos recursos e redes globais. “A cada ano, olhamos mais e melhor para o mercado brasileiro, pois vemos o ecossistema se desenvolver com intensidade aqui”, comenta.

Jornal do Comércio – Que fatores são primordiais para a criação de negócios inovadores e em quais tecnologias você vê mais potencial para os empreendedores que buscam escalar suas operações?

Itali Collini – Um conjunto de fatores compõe o desafio para a criação de negócios inovadores. Alguns deles são a dificuldade de acesso ao capital para dar início ao projeto, a falta de conhecimento sobre o ecossistema de startups e os atores que podem ajudar em cada etapa, e a necessidade de diferenciação para competir com o crescente número de startups com soluções similares. No caso das tecnologias e dos segmentos, a 500 Startups tem uma tese bastante abrangente, e não nos fechamos em apenas alguns setores para investir. Acreditamos que, aumentando nosso funil de entrada, é possível aumentar, também, nossas chances de investir em uma startup com alto potencial. Atualmente, são sete startups unicórnios (avaliadas em mais de US$ 1 bilhão) e mais de 40 centauros (avaliadas em mais de US$ 100 milhões). No entanto, notamos algumas tendências globais em termos de segmentos, como fintech, blockchain, healthtech, on-line to off-line e developer tools. JC – Como você tem observado a evolução da maturidade dos empreendedores brasileiros? Itali – Os empreendedores brasileiros que foram selecionados para os nossos batches (ciclo de seleção e aceleração de startups) apresentam maturidade, potencial de escalabilidade e um ótimo entendimento sobre os seus próprios setores. A cada ano, olhamos mais e melhor para o mercado brasileiro, pois vemos o ecossistema se desenvolver com intensidade aqui no País. Entretanto, ainda consideramos dominante uma mentalidade local ao invés de global, e acho que esse é um bom ponto para os empreendedores brasileiros amadurecerem. Isso faz bastante diferença para construir um negócio para ser global, tanto na questão do produto quanto na de acesso a redes como a da 500 Startups.

JC – A que você atribui o fato de o Brasil, mesmo com um ecossistema de inovação de destaque, ter gerado poucas empresas capazes de alcançar patamares globais?

Itali – Acredito que a baixa quantidade de empresas que alcançaram patamares globais se deve ao estágio de amadurecimento do ecossistema, que está em desenvolvimento mais intenso nos últimos 10 anos. Até o ano passado, por exemplo, não tínhamos nenhum unicórnio brasileiro – mas, neste ano, já se revelaram três: 99, PagSeguro e Nubank. Isso mostra tanto o potencial econômico das startups brasileiras quanto a velocidade em que podemos colher os frutos se continuarmos nutrindo bem como tem sido feito na última década.

JC – Como você aconselha um jovem empreendedor que sonha em construir uma empresa como Facebook, Netflix, Tinder?

Itali – Acredito que o primeiro passo é entender qual problema você quer resolver. A partir disso, há milhares de possibilidades de produtos e modelos de negócios, mas é importante que o empreendedor sempre lembre dessa questão, pois ela é o motivo para acordarmos todos os dias e dedicarmos horas a fio em termos de desenvolvimento de produto, relacionamento com clientes e investidores. Além disso, é fato que, empreendendo, vamos errar, há empreendedores investidos por nós que estão na segunda, terceira ou quarta startup, e isso não é um problema quando o fundador demonstra ter aprendido no processo.

JC – A 500 Startups pretende investir quanto nas startups brasileiras?

Itali – A 500 Startups é essencialmente um fundo de Venture Capital (VC) para startups em early stage, o que significa que ela foca em empresas de tecnologia em estágio inicial e investe a partir de seus programas de aceleração. No nosso programa mais conhecido, o Seed Acelerator, a 500 Startups investe US$ 150 mil em troca de 6% da startup, sendo que, desse valor, ela retém US$ 37,5 mil para que a startup participe de uma aceleração durante quatro meses em São Francisco. Todo ano há inscrições abertas para esse programa, e chegamos a receber 2 mil inscrições do mundo todo, por isso a competição é bem alta e não há uma projeção exata de quantas startups brasileiras serão selecionadas.

JC – Todos os países querem construir um Vale do Silício local. Qual o melhor caminho para alcançar a estruturação dos ambientes de inovação?

Itali – Cada país tem as suas peculiaridades, e acho que, para construir um “Vale do Silício”, elas também tem que ser consideradas. Não adianta muito querer copiar o que acontece lá nos Estados Unidos indiscriminadamente. No entanto, conseguimos observar fatores que possibilitaram o nascimento desse ambiente de inovação e que são, sim, possíveis de desenvolver no Brasil. Isso inclui a proximidade com universidades de ponta, a oferta de espaços focados em desenvolvimento de novos negócios, a disponibilidade de capital de risco e a diversidade de talentos, tanto em origens quanto em formação. No Brasil, embora já tivéssemos, há algum tempo, universidades de ponta e diversidade de talentos, ainda não tínhamos tanta oferta de espaços, como incubadoras e aceleradoras, nem tanta disponibilidade de capital de risco, como investidores-anjo e fundos de VCs, como passamos a ter nos últimos anos. Isso fez toda a diferença. Agora, é intensificar e ver florescer.